Mila era o nome da medrosa. Era uma cachorra da raça Setter. Seu dono, o jornalista Carlos Heitor Cony. Já falecido, foi colunista de peso em vários jornais do país, mas eu me recordo de le-lo na Folha de São Paulo. E, como vocês já perceberam, sempre gostei de ler e lembrei desse texto que ele escreveu quando Mila morreu, em 1995, e resolvi caçar na internet e fazer uma publicação com base nele.

Isso porque, Cony fala no artigo brevemente sobre sua própria rotina como jornalista e escritor: aquele sujeito, sentado talvez por horas, em um escritório, escrevendo, e tendo ao seu lado sua fiel escudeira[1]. Ao ler o texto, a impressão que se tem é que formavam uma dupla tão conectada, e suponho eu, nas minhas ideias, o Cony, sentado, e uma cachorrinha linda, todos os dias deitada aos seus pés. Durante um momento de luto, ele fez uma colocação: “Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento”.

É até poético, vale a pena ler o texto. Eu sempre tive essa mesma conexão com meus cães, ou seja, ter com eles laços emocionais, afetivos, até espirituais, pois desde meus 5 ou 6 anos eu pedia ao papai do céu que houvesse um céu para os cachorros, porque eu queria rever meu primeiro cachorro, um pastor alemão chamado Alf.

Trata-se de uma relação fenomenal: para quem curte um bichinho, é sempre um dos melhores momentos do dia e da vida. Em tempos recentes temos visto como aumentou enormemente a quantidade de pessoas que adquiriu um cãozinho durante a pandemia. Muita gente embarcou nessa onda de ter um companheiro canino. E, certamente, para muitas dessas pessoas que se sentiam sós como o Cony, os cães foram uma bênção, um baita companheiro. Uma reportagem do Estadão[2], em 2021, trata a respeito de uma pesquisa sobre adoção e abandono de cães, com mais de 2500 pessoas que adotaram durante a reclusão imposta pela pandemia.

No ano passado, tive alguns alunos filhos da pandemia. Os donos, geralmente, eram marinheiros de primeira viagem, e estavam começando a se aventurar nos cuidados de um serzinho de quatro patas. E, creio eu, que o principal motivo para boa parte das pessoas que trouxe para casa um pet era ter companhia, um outro alguém para dividir o espaço, para brincar, ou só para ter por perto, ao pé do sofá ou em cima dele. A pandemia transformou a vida da humanidade, porém quanto aos pets, em um certo sentido, foi uma transformação boa: pessoas descobriram como é bom ter um animal em casa, assumiram responsabilidades; para os cães e gatos, muitas vezes, foi a oportunidade de serem resgatados, e de começarem uma vida junto com seus humanos.

Outra coisa que aumentou bastante foi a preocupação dos tutores com os animais. Como as pessoas estavam quase que o tempo todo com os cães, começaram a ter mais atenção, mais dedicação e preocupações sobre a qualidade de vida deles. Na Espanha, por exemplo, houve uma melhora qualitativa para cães e gatos. Em uma pesquisa, os entrevistados revelam que passaram a dar mais atenção aos pets, e até mesmo aumentou o número de passeios; cães que nem mesmo saíam, com a chegada da pandemia, começaram a sair de casa[3].  O Jornal da USP fala de dados do mundo todo: desde o início do período pandêmico, houve um aumento de 400% na procura por animais[4].

Logo no início dessa turbulência que enfrentamos há dois anos, havia a preocupação quanto ao risco dos cães se contaminarem e transmitirem para os humanos. Mas rapidamente se soube que o tipo de coronavírus que os acomete é outro, e que não representavam risco aos tutores[5]. E já que não trazem risco, é importante lembrar os benefícios de se ter um pet em casa:

“Estudos publicados no American Journal of Cardiology mostram que pessoas que convivem com animais de estimação apresentam menor índice de estresse e maior controle na pressão arterial, o que reduz as chances de desenvolvimento de problemas cardíacos. ‘Não apenas a relação direta com os animais colabora com a saúde mental e física, mas o estabelecimento de uma rotina que permita aprender novas habilidades, novos conceitos, em como conhecer o seu animal e estabelecer a melhor relação entre ambos, torna o isolamento social uma maneira de cuidar da saúde em geral’, explica a professora Viviana Xavier, do Curso de Medicina Veterinária da PUC Minas”[6].

Fora que ficamos menos sedentários, temos sempre alguém muito leal ao nosso lado, ajudam até na nossa interação social. E não é porque sou adestradora não, mas já conheci muita gente por causa dos meus cachorros! Sem falar que, como tenho uma filha de 4 anos, é divertidíssimo ve-la com eles. E é claro que eles adoram a pequena: com o meu vira-lata, o Scooby, ela se deita para ver TV, em cima do chair stay dele. Sem contar que são babás de primeira: se eu estiver no quintal e a minha filha gritar “mããããããe”, eles ficam agitados, como se estivessem me cobrando, “você não vai ver o que ela precisa?”

São essas lembranças e momentos que fazem qualquer pessoa que já teve ou tem um cachorro acharem que mesmo o sacrifício e a dedicação valem a pena. São sempre memórias deliciosas. Caso você tenha adquirido um cão na pandemia, bem-vindo ao time! Já deve ter descoberto que mesmo com tanta dificuldade, tristezas, mudanças bruscas, quando chegamos em casa e vemos aqueles olhinhos brilhantes, não tem preço! Era disso que o Cony falava nas suas crônicas no jornal. Ele até escreveu um livro dedicado à Mila, “Quase Memória”. Amava-a tanto, que até ficou com um filhote fêmea de sua ninhada, que se chamava Titi. Era um cachorreiro de primeira, e se estive conosco hoje, estaria certamente feliz de estar no escritório, fechado, sem poder sair ou passear, mas com as suas amadas deitadas nos pés.

Esperam que tenham gostado! Obrigada!
Bi

[1] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/6/04/opiniao/5.html

[2] https://emais.estadao.com.br/noticias/comportamento,54-dos-brasileiros-adotaram-animais-de-estimacao-na-pandemia,70003818927

[3] https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-07-03/o-importante-papel-dos-animais-de-estimacao-durante-a-pandemia.html

[4] https://jornal.usp.br/atualidades/cresce-o-numero-de-adocoes-e-de-abandono-de-animais-na-pandemia/

[5] http://www.capital.sp.gov.br/noticia/como-cuidar-dos-animais-de-estimacao-durante-a-pandemia

[6] https://www.pucminas.br/EstamosJuntos/noticias/Paginas/bem-estar_04.aspx