Para quem gosta dos filmes da Disney, se recorda desse romance fofo, feito lá atrás, em 1955, regravado em 2019, em um formato mais atual com cães reais. A galera mais antiga como eu, os trintões ou quarentões, viu em alguma sessão da tarde o desenho do vira-latas (o Vagabundo) que se encanta por uma Lady (uma cocker spaniel) que, quando viu chegar na casa em que morava um bebê, se sentiu abandonada, posta de lado, e inesperadamente faz amizade com um vira-latas de rua, que a ensina muito sobre uma vida livre e cheia de aventuras.
Bem, é só um exemplo para a gente pensar, não é, sobre nossas preferências caninas: uns preferem os bons e velhos SRD (sem raça definida); outros não abrem mão de adquirir um filhote de linhagem, de raça como se diz.
Mas é sabido que toda e qualquer raça que hoje conhecemos, em alguma época passada, foi, por assim dizer, reproduzida por conta de características próprias que alguns indivíduos tinham. Ou seja, toda Lady um dia foi um Vagabundo, em tese: havia cães que eram bons de caça, outros de espantar outras espécies, outros bons de nado, e assim a humanidade foi observando tais características e, a partir desses animais peculiares, começaram os cruzamentos na tentativa (e erro) de se alcançar um filhote com as características desejadas.
E esse ainda é o desejo de vários criadores pelo mundo afora. Essa realidade não é diferente do surgimento dos primeiros filhotes que foram denominados como Goldendoodle, que vamos falar nessa matéria. Mas antes mesmo de falar desse cruzamento, houve um episódio bastante curioso, um cruzamento que ficou conhecido como Labradoodle.

O começo de tudo: o Labradoodle

Nos anos de 1980, Wally Conron era o gerente de criação da Royal Guide Dog Association da Austrália e responsável por fornecer cães-guia para deficientes visuais. Ele recebeu uma carta de uma norte-americana que morava no Havaí, uma senhora cega, que narrava para Wally um drama: o esposo dessa senhora era alérgico a cães de pelos longos, o que dificultava, portanto, a adaptação de um cão-guia por conta da pelagem de certas raças. Para ajudar essa senhora, Wally pensou então em cruzar duas raças que tivessem duas características bem específicas: que o cão pudesse servir como cão-guia (no caso, um Labrador) e que pudesse minimizar o problema da alergia do esposo alérgico (Poodle Standard).
Após anos de tentativas, em 1989, nasceram três filhotes, que Wally denominou como sendo um cruzamento híbrido, Labradoodle. Ele divulgou nas mídias o êxito que teve, e logo a notícia correu mundo afora. Um dos filhotes foi para essa senhora cega; dentre os três primeiros filhotes, o esposo dela não teve nenhuma reação alérgica. Em uma segunda tentativa, porém, nasceram dez filhotes, e perante esses, no entanto, o esposo teve reações a sete deles.
Cruzamentos de raças acontecem todo o tempo (aqui no Brasil, nossos famosos vira-latas são a prova viva disso!), o que nem sempre quer dizer que isso seja algo positivo. Para criadores, porém, a questão do bem-estar e da saúde dos filhotes deve ser levada em conta e, nem sempre, nesses cruzamentos programados, os filhotes nascem com as características que se espera de um novo perfil de cão.
Em uma entrevista à rede australiana da ABC , Wally Conron contou que criou na verdade um Frankenstein: um monstro. Isso porque a notícia, como dito, voou pelos ares, começaram a aparecer em vários cantos do mundo criadores reproduzindo – a partir dessas mesmas raças -matrizes, e os problemas começaram a aparecer: filhotes que não tinham perfil para serem cães de serviço ou com problemas genéticos. Enfim, para Wally esse teria sido seu maior arrependimento na vida, apesar da intenção boa que o motivou, mas que ao mesmo tempo fez com que criadores do mundo todo olhassem com maus olhos para ele, pois o cruzamento interracial de cães é um dilema para aqueles que dedicam uma vida a criar cães de uma mesma raça, preocupados com as melhorias genética e comportamental das ninhadas.
Para Wally, é importante que uma pessoa que quer adquirir um filhote híbrido, busque saber sobre o temperamento e a história dos pais do filhote, principalmente para evitar problemas de saúde nas ninhadas.
Wally Conron se tornou uma referência quando se fala de Labradoodle. Isso porque, de outro lado, ele incentivou tantos outros criadores a se dedicarem a reproduzir cruzamentos híbridos que, provavelmente, até já existissem e que, no entanto, nem eram conhecidas. E essa prática tem várias motivações, desde a tentativa de reproduzir um novo padrão de uma raça futura, até buscar novas características e uma diminuição de problemas genéticos de filhotes.
Em outras palavras, quem nunca ouviu dizer que os vira-latas são super-resistentes, não ficam tão doentes quanto outros cães de linhagem? Como eu disse antes, no Brasil, a quantidade de cães sem raça definida é tamanha que não há quem nunca tenha visto, conhecido ou criado um cãozinho sem padrão nenhum! O vira-lata caramelo que o diga: de tão conhecido, houve até campanha e charges para que ele se tornasse o desenho de fundo da nota de 200 reais!
Em resumo, essa discussão (se compro um cão de raça ou adquiro um vira-lata), é apenas para que possamos refletir sobre a realidade mundial: temos de tudo, e cabe a cada um pensar se aquele filhote que veio fazer parte da nossa família atende aos anseios de uma família e das pessoas que o acolheram.

Os Goldendoodle

E chegamos então à estrela principal, os Goldendoodle, esses cães grandalhões, fofos, peludos, às vezes desengonçados, que vemos hoje por aí. Segundo a Goldendoodle Association of North America, inspirados na experiência feita por Wally Conron, o Goldendoodle é fruto do cruzamento do Poodle com Golden Retriever: como está escrito no site da associação, são cães dóceis, extremamente sociáveis, inteligentes e excelentes para servirem como cães de serviço. Além disso, mencionam que o cruzamento possui um vigor que lhe é próprio, uma saúde boa, apesar de dizerem que podem ser um pouco estressados. E o objetivo da GANA, sigla da associação em inglês, é justamente auxiliar criadores em como buscar os melhores cruzamentos, sempre preocupados com a saúde e padrões desse hibridismo. Também traz na página oficial, uma relação de características e padrões próprios, além de uma série de publicações e conteúdo que falam sobre os Goldendoodle e sobre reprodução de cães, sempre voltados para a questão de fortalecer e enaltecer esses grandalhões peludos.
Em terras brasileiras, os Goldendoodle começaram a aparecer recentemente nas ruas e nas mídias sociais; personalidades e estrelas de TV trouxeram de fora alguns deles e hoje há vários deles bem famosos, com perfis no Instagram, com milhares de seguidores e tudo o mais! São diferentes, únicos, tal qual o Zal que a Sara fala coo uma surpresa inesperada. Para ela, assim como para outros tutores, certamente foi uma experiência nova, peculiar eu diria, buscando conhecer melhor as características esses grandalhões!
Esse cruzamento ainda é pouco conhecido por aqui, e não é referendado pela Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC). Entre as atribuições da confederação, “estão as de dirigir a cinofilia nacional, através das federações e entidades assemelhadas; instalar e manter o serviço de registro genealógico de cães de raça pura, fornecendo os respectivos certificados; manter relações com as entidades cinófilas internacionais; estimular e orientar a cinofilia nacional, por meio de convênios e intercâmbios; entre outros” . A ela, portanto, reportam os criadores para fazerem registros de raças chamadas puras e de seus canis e clubes, pois o propósito é validar criadores brasileiros que trabalham com cada uma das raças reconhecidas pela instituição em questão.

Designer e hybrid dogs – a diferença

Designer dogs são os cães de raça, resultantes do cruzamento entre matrizes puras; cães híbridos, são as novas variantes, fruto do cruzamento entre raças diferentes. Em um site norte-americano de cuidados veterinários, consta uma explicação bem simples para se entender a diferença: quando adquirimos um cãozinho de raça, conhecemos antecipadamente seu temperamento, suas características físicas, como o tamanho, peso médio. No entanto, o site explica que ainda assim não há como assegurar que os filhotes não possam ter problemas genéticos ou de saúde. Mesmo com as técnicas mais sofisticadas de teste de DNA, por exemplo, podemos adquirir um filhote que possa desenvolver problemas de origem genética.
Os hybrid dogs são então frutos de cruzamentos entre raças; ou seja, quando se espera que um filhote desenvolva determinadas características, fica mais difícil de assegurar que essas possam aparecer. É o caso, por exemplo, dos Labradoodle, que Wally Conron chamou de Frankenstein: com a multiplicação de cruzamentos que surgiram, houve de tudo: cães completamente diversos em temperamento com relação às matrizes, problemas genéticos inesperados, cães com diversos problemas de comportamento.
Além disso, pode haver outros cruzamentos que incluem mais de duas raças: por exemplo, um Labradoodle com um Goldendoodle, e isso, como explica o site, pode dificultar ainda mais a identificação de características e padrões ; esses cães são denominados em inglês mutt, isto é, nosso famoso vira-latas, de ancestralidade incerta ou desconhecida. Nos Estados Unidos há o American Canine Hybrid Club, uma associação totalmente dedicada para essas variações híbridas : são centenas de cruzamentos já reconhecidos pela associação, e eles ofertam a possibilidade de registro de outros cruzamentos interraciais, oferecendo, inclusive, ao criador que escolha a denominação que o cruzamento terá em gerações futuras. O que se observa, portanto, é que os criadores de cães oriundos de cruzamentos híbridos são cada vez mais comuns, e estão presentes no mundo canino, independente de reconhecimento, e isso acontece porque há uma procura cada vez maior por filhotes com esse perfil (Quanto aos Labradoodle, por exemplo, existe uma associação, Australian Labradoodle Association of America, totalmente dedicada aos criadores e para pessoas interessadas em adquirir filhotes híbridos).
Mas aí fica a pergunta: quem deixou de amar o vagabundo, vira-latas, só porque ele não tinha o tão desejado pedigree? E quem também não se encantou com a lady, meiga, charmosa e bem cuidada? No final da história romântica, o Vagabundo acaba sendo adotado pela família da sua companheira; Lady dá à luz a quatro filhotinhos, três semelhantes a ela, e um a cara do pai. E os filhotes? Sejam ou não de raça, tem coisa mais fofa do que ver filhotinhos brincando e se divertindo em nossas casas?
Enfim, amamos cães sejam eles quais forem, tenham eles as características que tiverem; eles simplesmente vêm preencher em nossas vidas e em nossos lares aquela parcela de diversão, companheirismo e carisma que só um animal de estimação pode nos dar.

Até mais!
Bi